Onde estás agora?

Há um ano atrás percorria, todos os dias, o pior trajecto da minha vida... Há um ano atrás estava a poucas horas do último minuto contigo... Há um ano atrás metade do meu coração parou com o teu.
Lembro-me, como se fosse hoje, de cada minuto.
Cada minuto que percorri dentro do carro até chegar junto a ti.
Cada minuto que perdi a tentar parar o carro, quando a minha ânsia era só correr para junto de ti e dizer-te "Cheguei".
Cada minuto que vi a tua alegria de me ver chegar.
Cada minuto que tratei de ti como se trata de um bebé.
Cada minuto que punha as tuas músicas favoritas só para te ouvir a cantarolar.
Cada minuto que ficava ao teu lado a ouvir o teu coração em sofrimento e não poder aliviar a tua dor.
Cada minuto em que contavas as histórias que a tua mente já inventava, inconscientemente.
Cada minuto em que me pedias para te tirar dali.
Cada minuto em que dizias o quanto gostavas de mim.
Cada minuto em que via a tristeza fixa no teu olhar.
Cada minuto em que não cumpri o que tanto me pedias.
Cada minuto foi uma vida. 3 meses de luta contra o tempo.
A vida mostrou-me o quanto eu te amava, da pior maneira. Eu amava-te tanto, tanto... Eu queria tanto não ter de te ver sofrer, eu queria ter-te aqui do meu lado.
Eu amava-te tanto que nunca julguei ser capaz de cuidar tanto de ti. Eu amava-te tanto que cada olhar teu, cada olhar de dor, fazia com que o meu coração não aguentasse. Cada vez que te virava a cara, cada vez que tu falavas comigo, cada vez que tu respiravas... Eu não conseguia Pai, eu não conseguia não chorar porque tu não eras aquilo que os meus olhos viam naquele momento. Tu não eras aquilo, nunca conheci tanto sofrimento num corpo, nunca vi nada assim. Mas tu foste capaz, tu foste capaz de aguentar 3 meses de uma luta contra ti próprio.
O teu corpo não aguentava mais, desde o primeiro dia em que eu te levei para aquele lugar, onde mais tarde já só te trouxe no meu coração.
Ainda hoje espero que me acordem e me digam que é mentira.
Eu quero-te aqui comigo, Pai! Eu quero continuar a partilhar tudo contigo. Eu quero partilhar cada detalhe do meu dia, eu quero dizer-te os meus erros, eu quero contar-te os meus medos, eu quero ouvir de ti tudo o que me dizias, nem que fosse só aquelas piadas tão repetitivas em que eu me ria sempre.
Ainda espero a tua chamada todas as noites. E sabes? Ainda me lembro quando achava que eras um chato por me ligares sempre à mesma hora, por me ligares sempre que acabavas o teu dia de trabalho e ias para a solidão da tua casa... Ainda me lembro do quão parva era. Inconscientemente, isso fortalecia-me! Inconscientemente, saber que te importavas comigo fazia de mim alguém mais feliz... Porque eu queria-te comigo.
Hoje, hoje dava tudo para ouvir a tua voz... Hoje dava tudo o que tenho para te dar aquele abraço que, raramente, te dava, por orgulho. Hoje, se te tivesse comigo, não te largaria. Hoje iria dizer-te o quanto te amo a toda a hora.
Dizem que só se dá valor quando se perde... Por um lado até concordo pai, e sinto-me triste por isso. Gostava de não ter sido assim, gostava de ter aproveitado cada segundo para te mostrar e dizer o quanto eras imprescindível na minha vida, para te mostrar o quanto amava, para te abraçar sempre que te via, para repetir cada segunda-feira como se fosse o último dia que partilhávamos juntos.
Lembraste quando dizíamos que devíamos de começar a ir jogar Basket ao choupal? Dava tudo para poder voltar ao tempo em que me ensinavas todos os truques, dava tudo para te ver a sorrir quando, orgulhoso, me vias a incestar ou a dar os passos certos.
Ontem fui a um lugar onde só ia contigo pai. Quando lá cheguei e olhei para todo aquele mundo que te fazia vibrar, o meu coração quase parou... Senti os meus olhos completamente cheios, bastava um pestanejar e as lágrimas escorreriam-me pela cara. Porque aquele lugar era nosso, porque aquele era o mundo que tu me fizeste conhecer, aquilo é tudo o que tu me ensinaste a amar!
Faltam neste momento vinte e duas horas para fazer um ano, um ano em que recebi o pior telefonema da minha vida. Não era teu. O teu coração tinha parado, não aguentou mais e perdi-te para sempre...
Quatro horas antes, despedi-me de ti para toda a vida, lembraste pai? Quatro horas antes, com o meu coração completamente despedaçado, olhei para ti e tentei convencer-te que iria tudo correr bem, na esperança que não sofresses... Quatro horas antes os meus olhos viram-te pela última vez e a minha voz sussurrou perto do teu ouvido "Gosto muito de ti Pai"...
O meu coração não aguentava mais. Eu queria, eu queria acompanhar-te até ao fim, mas eu não podia permitir-me a ver-te a morrer à minha frente, eu não podia permitir que o meu coração morresse contigo... Perdoa-me pai, perdoa-me ter sido egoísta.
Eu acredito que tu estás bem, onde quer que seja.
Eu sei que estás feliz por mim.
Provavelmente não estarás orgulhoso de todas as asneiras que tenho feito, eu sei...
Acho que, aí, tu sentes a falta que sinto de ti. Sei que me acompanhas minuto após minuto.
Sei que me guias.
Mas, Pai, espero que saibas o quanto gosto de ti...
O mundo seria muito melhor com o teu sorriso de volta.
O meu mundo precisa tanto de ti. O meu coração também.

Tu tens contigo a metade do meu coração, guarda-a bem Pai.
Tenho tantas saudades tuas...

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