Meu pai..

Olá pai...
Escrevo-te porque tenho saudades tuas... Tenho saudades do teu jeito tonto de demonstrares que me amavas. Tenho saudades de quando me fazias companhia nas noites em que eu não conseguia dormir, mesmo quando adormecias pelo meio... Tenho saudades de quando deixavas tudo para trás, até o cansaço para vir ter comigo... Tenho saudades de quando me levavas a passear para qualquer lugar onde já tínhamos ido mil e uma vez, mas tu gostavas e eu amava fazer-te companhia... Tenho saudades de me levares a jantar ou almoçar fora mesmo que esse fosse o último dinheiro que tivesses até ao fim do mês... Tenho saudades de me teres dado tanto na cabeça para eu conduzir bem... Tenho saudades de me deixares cantar as músicas todas no teu carro até me cansar, vezes e vezes repetidamente. Tenho saudades de te ver sorrir. Tenho saudades de te ouvir contar as mesmas histórias tantas e tantas vezes, só para me fazeres rir... Tenho saudades...
Saudade é um misto de emoções, sabes?
É um querer voltar atrás no tempo e aproveitar cada segundo que podia ter tido ao teu lado, e que desperdicei... É querer uma chamada tua todos os dias, depois de saíres do trabalho... É ver a tua foto, e sorrir instantaneamente, pensado que mais cedo do que espero te vou encontrar por aí... É saber que dói por ter sido tão impotente...
Tenho saudades tuas, pai!
Quando volto a ver-te? Quando me vens buscar?
São estas perguntas que a minha cabeça faz, inconscientemente, talvez... Mas que, minutos ou horas depois, se lembra de que partiste...
Nunca eu imaginei ver-te partir... Nunca, nunca, nunca. Acreditei até ao último minuto que ficasses comigo, acreditei até que iria tomar conta de ti em minha casa, todos os dias... Acreditei na força que carregavas dentro de ti, acreditei que todo esse coração fosse capaz de ultrapassar tudo, mas a vida contrariou-me... Foi tudo tão cruel.
Ainda dói tanto... Parece que foi ontem que te vi naquela cama, inconsciente, sem saberes quem eu era... Sem dizeres uma única palavra... Sem reagires a qualquer toque... Ainda dói como se estivesse junto a ti neste momento... E tu, no meio desses dias pedias-me para ficar contigo... Pedias para que te fissesse companhia todas as noites, mas eu não podia pai... Eu não podia... Talvez uma defesa minha, porque as poucas horas que passava contigo ja me fazia doer tanto o coração... Fui tão egoísta... Não consegui ver-te sofrer mais... Não fui sequer capaz de fazer contigo o que tu fizeste tantas vezes comigo... Desculpa!
Ainda oiço as músicas que tu tanto gostavas, e sempre que uma delas começa a tocar lembro-me das últimas vezes em que tu cantarolavas todas elas, quase inconsciente, quase sem conseguires dizer mais nada... Mas nunca te esqueceste de cada uma delas.
Não te esqueceste de mim até ao último dia, sabias que eu era a tua filha, sabias o meu nome completo, sabias que era a mim que querias ao pé de ti... Mas eu não fui capaz pai, não fui capaz de estar ao pé de ti até ao teu último segundo... Nesse dia eu fiz o que pude, eu chamei todos aqueles que te eram próximos para se despedirem de ti enquanto o teu coração ainda batia... Eu dei o meu melhor, ainda que não tenha sido o suficiente... Até essa grabde máquina, que era o teu coração, ter decidido parar... Foste um herói, pai!
Orgulho-me tanto de ti. Orgulho-me da tua luta, ainda que eu não a quisesse para ti, orgulho-me do quanto tentaste vencer, orgulho-me de ti!
Tenho tantas saudades de te ouvir refilar comigo... Tenho tantas saudades tuas, tantas tantas...
Que o dia chegue, para te poder abraçar rápido!
Gosto tanto de ti, tanto tanto pai...

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