Anjo.

Um dia sei que vou cair. Sei que vou pensar em ti e vou cair de joelhos no chão frio. Sei que o meu coração vai parar e a respiração vai falhar. Vou sufocar. Vou meter as mãos à cabeça e gritar o teu nome, num silêncio fundo. As lágrimas vão correr. Os olhos vão perder a força para se voltarem a abrir.Vou ansiar ir ter contigo. Cerrar os meus lábios e prender-me a ti. Vou pegar num punhado de terra e manda-lo ao vento. Vou abrir os braços e sentir a chuva. Mergulhar no mar e sentir o bater das ondas. Vou deixar de respirar. Vou querer dar dois murros no peito. Gritar ao mundo a minha dúvida. Perguntar ‘PORQUÊ?’. Vou sentir o bater do coração. Meter as mãos à cabeça. Abrir os olhos. Respirar. E no fim, vou chamar por Ti.
Um dia sei que alguém me irá sussurrar a resposta. Alguém me irá guiar. Levar-me até essa cidade. Dar-me umas asas. Voar contigo. Dizer-te tudo o que sinto preso no meu peito. Pedir-te o que mantenho fechado dentro de mim. Implorar-te. Olhar-te nos olhos. Dar-te um beijo. Abraçar-te. Por fim, vou sussurrar-te bem baixo ‘Continuas a ser o meu orgulho porque me deixaste a tua força. Nunca me deixes só.’. Ver-te derramar uma lágrima. Limpar-ta. E, com o rosto pálido e frio coberto de lágrimas, vou descer.
Um dia quando me perguntarem com jeito de frieza ‘Onde foste?’, eu vou responder ‘Vim do céu.’. Vão agarrar-me. Vão chorar comigo. Vão sentir parte da minha dor. Vão perceber o que faltava decifrar. Eu vou negar tudo isso. Vou voltar a cair. Vou voltar a ajoelhar-me naquele pedaço de terra frio. Vou chamar-te. Vou gritar ‘OBRIGADO’. Tu vais entender. Vou olhar para o céu. Vou manter o silêncio. Depois, vou levantar-me. Vou erguer-me. Vou viver. Vou reviver. Reviver o que vivi contigo. Vou a todos os lugares onde estivemos. Vou dizer todas as palavras que eu te disse. Vou repetir todos os gestos. Desta vez não irei ter nada em troca. Só não vou poder entrar novamente no teu mundo. Não vou poder entrar no teu carro. Não vou poder sentar-me e dobrar-me para te dar um beijo. Não vou poder fazer viagens de horas contigo. Não vou poder parar contigo para ver as estrelas. Não vou. Já não posso.
Um dia, vou olhar para o céu. Vou olhar e dizer ‘Aquela é a minha estrela!’. Vou derramar uma lágrima. Vou respirar fundo. Vou sentir-me favorita. Vou dizer-te que estou aqui. Vou pedir-te que guardes a minha alma. Bem perto de ti. Guardada na palma das tuas mãos. Quando me perder, fecha as mãos. Aperta-me a alma. Sussurra. Ensina-me o caminho. Ralha comigo. Abre-me os olhos. Apenas não me deixes. Conduz-me
Um dia, vou fechar a porta com a maior força. Vão sentir a minha dor. Vão ver que um sorriso não é tudo. Esconderijo da maior pegada que deixaram na minha vida. Dor. Sofrimento. Ocultação da mágoa. Vão ver que a aparência forte nunca existiu. Vão ver um ser desvanecido e gasto. Vão sentir que não encontro o sentido. Vão deparar-se com as minhas gargalhadas a fazerem eco. Gargalhadas que ocultam os gritos de desespero. Os que guardei numa caixa. Vão ter de a abrir um dia. Não vão aguentar. Vão ser fracos. Vão dar-me valor. Vão saber o quanto me fazes falta aqui. Vão, uma vez na vida!
Um dia vou virar as costas.
Um dia vou sentir vontade de acordar disto.
Um dia vou pedir-te uma oportunidade para voltarmos atrás.
Um dia vou fechar os olhos.
Um dia vou olhar para ti e dizer-te o quanto senti a tua falta.
Um dia, seja quando for, nunca será tarde demais.
Um dia vou explicar-te cada pormenor que ficou por contar.
Um dia vou fazer dos meus olhos o teu sorriso.
Um dia.
Hoje é o dia!

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